Começa a corrida para o Prêmio “Ospitalità Italiana”

Ospitalità Italiana: selo serve como garantia de uma verdadeira experiência "Made in Italy"

Por Erica Bernardini

A cozinha étnica é, sem dúvidas, uma poderosa ferramenta para a propagação de características culturais de um país, sendo capaz de aumentar sua popularidade ao redor do mundo.

Reconhecida em todo mundo pela combinação bem sucedida entre paladar agradável e efeitos saudáveis, a “Dieta Mediterrânea”, hábito alimentar descoberto pelo cientista norte-americano Ancel Keys, que ao desembarcar em Salerno (no sudoeste da Itália, próximo à Costa Amalfitana) em 1945, constatou que as doenças cardiovasculares, tão comuns em seu país, ali eram muito reduzidas e que as chamadas “doenças do progresso”, como arteriosclerose, hipertensão, diabetes, doenças digestivas, obesidade, etc., se manifestavam em um percentual muito baixo.

Tal efeito se deve ao fato de que a dieta do Mediterrâneo se caracteriza pela abundância de cereais (massas, pães, polenta), verduras, legumes e frutas (frescas e secas); pelo uso do azeite de oliva como principal fonte de gordura e pelo moderado consumo de produtos de origem animal. É também rica em vitaminas, minerais, carboidratos e fibras, sendo pobre em ácidos graxos saturados. Porém, apesar de seus benefícios para a saúde, o seu sucesso em países como os Estados Unidos, cuja cultura gastronômica é bastante distinta da sua, veio apenas com a “revolução” do típico restaurante italiano, mais exatamente com a aparição de uma “Nouvelle Cuisine” italiana arraigada em fundamentos bem diferentes em relação às tradicionais “trattorie”, nas quais os imigrantes tentavam reconstruir “um pedaço da Itália”.

Com o intuito de promover as tradições dos produtos agroalimentares italianos, valorizar a cultura gastronômica baseando-se nos conceitos puros da Dieta Mediterrânea e a imagem de alguns dos principais restaurantes do segmento no exterior, o ISNART (Instituto Italiano de Pesquisas Turísticas e Gastronômicas) estabeleceu um “selo de certificação” o Ospitalitá Italiana, para garantir o respeito pelo padrão de qualidade do “Made in Italy”. Além de garantir pratos fidedignos à culinária e o uso correto de seus produtos, os restaurantes também são avaliados pela apresentação, decoração e recepção. Os requisitos básicos exigidos são: Cinco receitas tipicamente italianas, modo correto de preparo, disponibilidade do azeite de oliva extra virgem italiano durante as refeições, pelo menos 20% da carta de vinhos contendo rótulos italianos com identificação da região de origem, experiência do Chef de cozinha de ao menos seis meses em restaurantes italianos, cardápio escrito corretamente na língua italiana, apresentação dos pratos e, por fim, recepção, que exige que ao menos uma pessoa fale fluentemente o idioma italiano.

No total, 75 cidades em 47 países participam da seleção. São Paulo é a cidade com o maior número de restaurantes certificados com o selo e, entre eles, recomendamos o Zena Caffé, com decoração rústica que remete ao clima das vilas italianas e cuja culinária baseia-se na região da Ligúria, ao norte da Itália; o Spadaccino, com cozinha artesanal genuinamente bolognesa, baseada na tradição e na origem da família de seus donos, os irmãos Paula e Roberto Lazzarini e o Vicolo Nostro, que realmente remonta um pedaço da Itália em São Paulo, desde sua localização aos objetos de decoração, passeando pelos sabores e aromas do mediterrâneo.

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Saudosas cantadas

Por Fernanda Botta

Cantadas Literárias: a coleção hoje só é encontrada em sebos.

Despudorados como um gracejo de botequim. Assim são os livros da já saudosa – e, diga-se de passagem, acertadamente nomeada – coleção Cantadas Literárias, da Editora Brasiliense. Criada nos anos 1980 e focada no público jovem, a Cantadas Literárias dedicava-se a lançar escritores então desconhecidos. Foi através dela que toda uma geração conheceu Paulo Leminski, que a pedido dos editores escreveu o romance “Agora é Que São Elas”, Caio Fernando Abreu, que por meio da coleção publicou o cult “Morangos Mofados”, e Marcelo Rubens Paiva, que na ocasião nem podia imaginar que o seu “Feliz Ano Velho” se tornaria um sucesso comercial, com direito a filme estrelado pela atriz Malu Mader. Também com ela, muita gente conheceu a poesia de Chacal, Chico Alvim,Ana Cristina César e Martha Medeiros, que à época era uma jovem estudante de publicidade.

Embora estilisticamente díspares, todos os autores discorriam francamente sobre sexo, drogas e identidade, entre outras questões típicas dejovens de qualquer tempo e lugar. Em suma, tinham em comum uma temática e uma linguagem mais acessíveis. Ou pelo menos mais próximas do jovem do que os aborrecidos clássicos que eram obrigados a ler na escola. Perdoem-me os puristas, mas esperar que alguém tenha prazer na leitura partindo de O Guarani, de José de Alencar – e suas longas e muitas linhas apenas sobre o banho de umamocinha – é pedir demais. Eu sei disso, você sabe disso, Caio Prado Júnior sabia disso. Quando pensou em uma literatura que pudesse efetivamente aproximar o adolescente dos livros, oentão diretor da Brasiliense acertou em cheio. “É verdade que se lê pouco no Brasil?”, perguntava na contracapa do primeiro número. A coleção vendeu como água.

Estava em todos os lugares, na boca e na mochila de seus leitores. Em tempos sem internet, era um achado. Hoje, basta digitar no Google a frase “Caio Fernando Abreu” para ter acesso à obra do autor – ou pelo menos a dezenas de citações de sua obra. Para quem usa o Twitter, é ainda mais fácil. É só seguir o usuário @CaioFAbreu, criado por um leitor, e voilá! As citações aparecem em sua página. Citar Caio Fernando Abreu hoje é banal como escovar as dentes. Mas nem sempre foi assim.

É claro que os pais e a crítica torceram o nariz. Imagine só um livro que narre, de qualquer forma, o ato sexual? Ou que tenha em seu vocabulário uma boa dúzia de termos para descrever a genitália humana, termos que nem esse blog de família teria a coragem de reproduzir? Ou que fale abertamente sobre drogas ilícitas? Ou pior, faça tudo isso de forma despojada, livre das amarras daquilo que era considerado correto dentro da literatura? Era uma afronta. Fernando de Barros e Silva, em um artigo de 1989 do falecido suplemento Letras, do jornal Folha de S. Paulo, considerou a coleção um investimento dos editores “em temas do cotidiano e textos fáceis para arrebanhar um público sem cultura e carente de referências literárias”.

Mas o tempo passa, o tempo voa, e a coleção hoje é referência. E é uma pena que, tão esquecida e necessária quanto aquele bilhete desavergonhado com um número de telefone trazido pelo garçom, só se encontre em sebos.

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Clube do clique

Por Fabrício Fernandes

Torre Norte e São Paulo (Cássio Vasconcelos)

A fotografia, embora noticiada de forma oficial em 1839 na Academia de Artes e Ciências de Paris, não deve ser considerada como invenção isolada de uma única pessoa. O registro fidedigno da natureza, como representação técnica, foi resultado de uma árdua busca coletiva realizada por indivíduos de diversos países. Entre os pioneiros mais importantes estão nomes como: Niépce, Daguerre, Fox Talbot, Herschel e tantos outros mais que contribuíram de forma efetiva para que se tornasse realidade.

Tesão no Forró (Nair Benedicto)

Tão logo a fotografia nasceu e tornou-se um catalisador do olhar, a interpretação humana submeteu-se a uma nova ordem, intensificada pela visão, pois surgira uma máquina capaz de reproduzir com perfeita verossimilhança o mundo como o conhecemos. No Brasil, toma corpo com a chegada de profissionais estrangeiros para registrar o “exótico” – indígenas, natureza e escravos. Anos mais tarde, foto clubes se estruturaram nas cidades do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo, tornando-se disseminadores da arte. Outro apoio fundamental para sua dispersão foi o incentivo de revistas a favor do artifício, como O Cruzeiro, Revista S. Paulo e a Klaxon – dirigida pelo poeta Mário de Andrade.

Em solenidade aos dez anos do Clube dos Colecionadores de Fotografia do MAM-SP, celebrados este ano, a Sala Paulo Figueiredo, no Parque do Ibirapuera, tornou-se a sede da pequena, mas importante, exposição fotográfica homônima à data comemorativa. Até o final do mês de agosto uma parcela do projeto, inédito no Brasil, estará à disposição do público paulistano. A concepção da reunião apresenta a seguinte metodologia: anualmente o museu convida cinco fotógrafos, respeitados no âmbito – entre os mais de cinquenta que integram o Clube – a produzirem obras para serem adquiridas pelos sócios colecionadores. Um exemplar de cada obra será incorporado ao acervo do MAM-SP. Assim, ganham artistas, colecionadores, museu e o público admirador da arte.

Tampa de Bueiro (Thomaz Farkas)

Cinco são os temas que dividem a exposição: Identidade nacional, Documental imaginário e Vanguarda histórica, que apresentam ícones do fotojornalismo e fotodocumentarismo no país como Thomaz Farkas, German Lorca, Walter Firmo e Nair Benedicto, e deixa claro o caminho traçado de atos populares rotineiros à representação de uma identidade nacional. Limites / Metalinguagem e Retrato / Autorretrato trazem a comunicação da fotografia em meio às outras técnicas, como colagens e sobreposições de imagens. Maurren Bissiliat, Arnaldo Pappalardo e Cássio Vasconcelos expõem obras que infiltraram na produção contemporânea uma visão documentarista expressiva, levando a fotografia a um nível de linguagem e expressão superiores.

A exposição Dez Anos do Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM – SP é preciosa tanto por reunir exemplares de artistas apresentados como marcos na história da fotografia brasileira, quanto por obras contemporâneas de elevada qualidade.

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Nem todos os gatos são pardos… Alguns vestem neon

Por Régis Godoy-Rocha

Famosa por ser uma das mais diversificadas do Brasil, a noite paulistana vai do luxo ao lixo, oferecendo opções de todos os tipos, gêneros e tamanhos, para todas as idades e gostos, praticamente de segunda a segunda.

Alternativamente ao circuito dos grandes clubes que na década de 1980 e 1990 povoaram bairros mais afastados do chamado Centro Expandido da Capital, como Itaim, Brooklin, Vila Madalena, Vila Nova Conceição e Jardins, na última década a cidade viu ressurgir na Bela Vista, Consolação e Cerqueira César, além do próprio Centro da Cidade, ótimas opções. Em geral são clubes pequenos que oferecem um ambiente mais intimista e exclusivo, como os do Village novaiorquino, ou do Montmartre parisiense, que tem atraído um público que busca alternativas daquilo o que faz outras baladas parecerem iguais. Tudo isso, é claro, sem deixar de ser bem divertido.

Na esteira do boom imobiliário que veio a reboque das políticas municipais de retomada e revalorização da zona central de São Paulo, áreas antes consideradas irremediavelmente degradadas readquiriram um charme novo e exótico – foi assim que nasceu o intitulado “circuitinho fashion-moderninho”, que se estende a partir da Avenida Paulista em direção ao Marco Zero da cidade.

Entre as baladas mais interessantes do momento está a Lions Nightclub, situado na Avenida Brigadeiro Luis Antônio. É uma das mais descoladas da cidade, freqüentada pelos formadores de opinião mais influentes na área de moda, artes e entretenimento. O clube deve seu charme em boa parte ao seu espaço: a sobreloja de um prédio da década de 1950, com um terraço de onde se tem uma vista deslumbrante do centro de São Paulo. A decoração salta do kitsch ao moderno num simples volver de portas.

Outra boa pedida é o Sonique Bar, localizado à Rua Bela Cintra, cuja decoração brutalista é o principal cartão de visitas, agrega um público não muito homogêneo. Já o público mais jovem e “moderninho” tem se concentrado em três casas praticamente no mesmo quadrante da cidade: o Hot Hot Club, na Rua Santo Antônio, o Clube Glória, na Rua 13 de Maio, e o Vegas Club, que fica na Rua Augusta. São três opções que atraem um público bem inusitado, com uma faixa etária bem diversificada. Prepare-se para uma balada cheia de gente que não se veste de maneira muito convencional, e com uma música que não segue qualquer linha específica. Talvez seja esse mesmo o charme desses clubes: uma noite neles quase sempre vira uma grande surpresa.

Além de capitanearem uma reconquista heróica da área central da cidade, essas casas também têm imprimido um novo ritmo na vida cultural paulistana. A cena musical tem se diversificado consideravelmente, na medida em que DJs e músicos iniciantes encontram nesses clubes palco e platéia para se apresentarem – o que tem inclusive favorecido o nascimento de novas bandas. Ao servir de ponto de encontro do pessoal da área de moda e artes, o “circuitinho” também tem funcionado como um verdadeiro berçário de inovações e movimentos, frutos da troca de figurinhas que nascem entre um mojito e outro.

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